Só a oferta de casas novas pode baixar os preços

Portugal foi o país da zona euro onde os preços das casas mais subiram em 2016 e isso fez soar o ‘alarme’ em Bruxelas. Os especialistas asseguram, contudo, que não estamos perto de uma ‘bolha’ imobiliária e que é necessário ter mais oferta para baixar os preços.

O casal Cristina Almeida e Sérgio Lopes há muito que pensam em mudar de casa, encontrar uma maior para acompanhar o crescimento da família, de preferência em Lisboa. No início da procura consideraram que não seria difícil, pois pensavam que havia muita oferta acessível na capital, contudo, os preços subiram demasiado mesmo fora das zonas históricas, consideradas premium.

Em determinadas artérias da cidade, os preços por metro quadrado estão muito acima dos valores praticados nos últimos anos, em virtude da euforia que se vive atualmente no mercado imobiliário, sobretudo com os projetos de reabilitação nas zonas históricas dirigidos aos investidores estrangeiros.
Com este aumento dos preços volta a falar-se em especulação e na tão aterradora ‘bolha’ imobiliária. Sobretudo, numa altura em que os últimos dados divulgados pelo Eurostat (sistema estatístico da União Europeia), revelam que, em 2016, os preços das casas aumentaram 4,1% na zona euro e 4,7% na União Europeia face ao quarto trimestre de 2016, em comparação com o período homólogo.

Apesar de apresentar valores abaixo do crescimento registado em 2006, esta é a maior taxa de crescimento anual verificada desde 2009, o que demonstra que os preços das casas estão a recuperar globalmente desde a crise.

Observando o índice de preços da habitação deflacionada (ou “real”), que é um dos indicadores utilizados no procedimento de desequilíbrio macroeconómico (PIM) da Comissão Europeia, 11 países registaram uma taxa de crescimento anual igual ou superior a 6%, valor identificado como de ‘alarme’ no contexto do PMI. Entre estes países encontra-se Portugal, assim como a Bulgária, República Checa, Hungria, Letónia, Malta, Áustria, Roménia, Eslováquia, Suécia e Reino Unido.

Apesar do ‘alarme’ soar em Bruxelas e de Portugal estar no topo do ranking da zona euro com uma subida de 7,1% em 2016 – a quarta maior do euro, sendo apenas superada por Malta (9,2%), Letónia (8,8%) e Áustria (8,5%) –, os especialistas nacionais são perentórios em afirmar que não existe o perigo de uma ‘bolha’ imobiliária em Portugal. Joaquim Montezuma de Carvalho, professor auxiliar convidado no ISEG/Lisbon School of Economics and Management e sócio gerente da ImoEconometrics, garante que esta subida não é reveladora da totalidade do país. “Em Lisboa, em determinadas zonas, os preços sofreram uma grande subida que tem sido acompanhada e estendida a várias artérias e bairros da cidade, mas isso não acontece no resto do país. Aí os preços mantêm-se sem grandes alterações. Tudo isto está a acontecer devido à lei da oferta e da procura, como sempre aconteceu”, explica o responsável.
O economista salienta que neste momento a procura está a superar a oferta e quando os projetos se resumem muitas vezes à colocação no mercado de 10 apartamentos ou pouco mais, isso faz subir os preços e não vai resolver o problema da procura. “Apesar de ainda existirem muitos edifícios para reabilitar nas cidades, neste momento há falta de produto novo, de projetos construídos de raiz com alguma dimensão, para os preços se voltarem a equilibrar”, garante Joaquim Montezuma.

Alguns dos empreendimentos de construção de raiz que estão a surgir novamente na cidade têm sido um sucesso de vendas porque o mercado necessitava deles. Vai ser essa oferta a entrar no mercado e outras que surjam e que, na opinião do especialista estão a fazer falta em Lisboa, que irão obrigar à descida do preço na venda de habitação. Se o casal Cristina e Sérgio já encontraram casas usadas à venda em Benfica por 2.500 euros o metro quadrado, naturalmente que estão a visitar alguns dos empreendimentos em construção na capital ou perto dela. “Temos de procurar todas as possibilidades, mas não vamos investir em casas a preços especulativos”, reforçam.

Joaquim Montezuma aconselha por isso a aumentar a oferta de projetos novos.